A Escola Vazia de Política

Desde a década de 70, o Brasil vem experimentando um processo gradual de retirada do conteúdo sociopolítico dos currículos escolares. A ditadura militar, ao impor uma reforma educacional marcada pela tecnocracia e pelo enfoque em disciplinas “neutras”, buscava afastar os jovens do debate crítico sobre a sociedade e o Estado. A intenção era clara: formar técnicos eficientes, mas não cidadãos questionadores.
Tenho certeza que os mais velhos ainda lembram da matéria escolar chamada OSPB (organização social e política brasileira) tão temida pelos alunos nas décadas de 50 e 60, abolida neste processo.
Nas décadas seguintes esse movimento continuou de forma disfarçada. A carga horária de História, Sociologia e Filosofia foi reduzida ou fragmentada. Quando retornaram oficialmente, vieram enfraquecidas, sem o espaço necessário para desenvolver raciocínios mais profundos sobre democracia, direitos e cidadania.
O resultado é uma geração que, muitas vezes, desconhece o funcionamento básico dos três Poderes da República.
Assim, a política, longe de ser compreendida como instrumento de transformação coletiva, passa a ser vista apenas como palco de escândalos ou de slogans meramente publicitários e rasos.
A ausência de formação crítica reflete-se no baixo nível dos debates públicos, na dificuldade de distinguir informação de manipulação e na adesão cega a discursos simplistas que ocupam espaço nas redes sociais.
É lamentável perceber que, ao abdicar de formar cidadãos conscientes, o sistema educacional contribuiu para um cenário em que o eleitor se torna presa fácil de narrativas populistas e polarizações vazias.
Debater política, hoje, é quase sinônimo de briga e não de diálogo. Mas isso não nasce do acaso: é fruto de uma escolha histórica pela omissão. Discute-se política igualmente a um debate futebolístico e deixa-se de torcer pela seleção brasileira pela politização…
Resgatar o espaço da política na escola não significa doutrinar, mas ensinar a pensar. Significa dar aos jovens instrumentos para compreender as leis que regem sua vida, para questionar o que lhes é imposto e para participar de forma madura da democracia.
Infelizmente a falta de investimento trouxe um grande número de eleitores despreparados a exercer o voto e também muitos eleitos sem o devido preparo ao exercício do mandato.
E aí? Falta este conteúdo em nossas escolas? Estamos preparados ao exercício dos direitos políticos?
Vale a reflexão.
Douglas A. Roderjan Filho
Advogado e procurador da Câmara Municipal de Reserva – Pr.
Especialista em Direito Ambiental e em Gestão Pública.


