Tribuna da Notícia :: O seu jornal na Internet!

Site do Jornal Tribuna da Notícia editado e publicado em Reserva-PR.

De Sassá Mutema a Augusto Cury

Em 1989, Lima Duarte dava vida a Sassá Mutema, personagem de O Salvador da Pátria. Homem simples, trabalhador rural, quase sem instrução formal, Sassá conquistava enorme identificação popular e acabava lançado à política, chegando à prefeitura da fictícia Tangará. A personagem não era desprovida de inteligência. Pelo contrário: possuía esperteza, sensibilidade e capacidade de compreender as pessoas. Faltava-lhe, entretanto, aquilo que normalmente esperaríamos de alguém incumbido de administrar uma cidade: conhecimento técnico, formação e experiência. Mais de três décadas depois, Sassá Mutema continua sendo uma interessante metáfora para refletirmos sobre a política brasileira.

A democracia parte de uma premissa tão simples quanto fundamental: todos os cidadãos possuem igual direito de escolher seus representantes. O voto de quem estudou profundamente economia, administração pública e Direito vale exatamente o mesmo que o voto de quem jamais teve oportunidade de frequentar adequadamente uma escola — e assim deve ser. O problema não está na igualdade do voto, mas na histórica deficiência brasileira em oferecer educação capaz de proporcionar à população instrumentos para compreender assuntos cada vez mais complexos. Quando parcela significativa dos brasileiros enfrenta dificuldades de interpretação e de alfabetização funcional, seria ingênuo imaginar que isso não produza consequências também na maneira como consumimos informação política.

Nesse ambiente, candidatos que dominam a linguagem popular possuem enorme vantagem. Não necessariamente porque sejam melhores ou piores, mas porque conseguem transformar problemas complexos em mensagens simples, emocionais e facilmente compreendidas. O eleitor reconhece naquele candidato alguém que “fala como ele”. E a identificação frequentemente supera a análise de currículo, capacidade administrativa, resultados anteriores ou profundidade das propostas. Em situações mais preocupantes, até passados políticos questionáveis podem ser relativizados em favor do carisma e do sentimento de pertencimento. Sassá Mutema, guardadas todas as diferenças, simbolizava justamente a extraordinária força política dessa identificação.

É nesse ponto que o recente desempenho de Augusto Cury em debate presidencial provoca uma reflexão interessante. Independentemente de concordância com suas propostas, Cury chamou atenção de parcela do público pela postura, pela articulação e pela tentativa de apresentar conceitos relacionados a planejamento, gestão e políticas públicas. Nas redes sociais, seu desempenho produziu elogios e uma pequena onda de interesse por sua candidatura. Mas transformar admiração intelectual em voto é uma tarefa muito diferente. Quanto mais sofisticada for a mensagem, maior será o desafio de fazê-la alcançar uma sociedade extremamente heterogênea e marcada por profundas diferenças educacionais.

Isso também não significa afirmar que pessoas mais instruídas votam melhor. A história está repleta de escolhas desastrosas feitas por pessoas altamente escolarizadas. Significa reconhecer algo diferente: para vencer democraticamente, não basta conhecer administração; é preciso saber comunicar administração. Talvez o grande talento político esteja justamente em unir as duas coisas. Conhecimento técnico sem comunicação pode produzir excelentes diagnósticos e poucos votos. Comunicação sem conhecimento pode produzir muitos votos e péssimos governos. Quando carisma, competência, integridade e capacidade de comunicação aparecem juntos, encontramos algo muito mais raro.

Sassá Mutema era ficção. O dilema, entretanto, permanece bastante real. O desafio brasileiro não deveria ser retirar poder de escolha de quem possui menos instrução, mas exatamente o contrário: oferecer educação e formação política suficientes para que todos possam exercer esse poder com maior capacidade crítica. Afinal, uma democracia será tanto mais qualificada quanto mais qualificados forem os instrumentos de decisão colocados à disposição de seus cidadãos. Entre o candidato que apenas fala a língua do povo e aquele que apenas domina a técnica, talvez o Brasil ainda esteja procurando alguém capaz de fazer as duas coisas.

E no cenário municipal? Acontece este “fenômeno”?

—————-

Douglas Augusto Roderjan Filho é advogado formado na UEPG, há 25 anos. Procurador da Câmara Municipal de Reserva, pós- graduado em Direito Ambiental e em Gestão Pública.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *