Voto consciente- Escolher é muito mais do que apertar um número

Estamos novamente diante de uma eleição. Em poucos minutos, diante da urna, cada eleitor ajudará a decidir quem ocupará cargos públicos pelos próximos anos. Mas a decisão que dura poucos segundos deveria ser resultado de uma reflexão muito mais longa. Votar conscientemente não significa votar neste ou naquele candidato, muito menos seguir a escolha de amigos, familiares, influenciadores ou grupos políticos. Significa buscar informação, comparar propostas, conhecer o passado dos candidatos e, principalmente, pensar nas consequências da escolha.
O primeiro cuidado talvez seja o mais difícil nos tempos atuais: separar informação de propaganda e verdade de desinformação. Uma mensagem recebida pelo WhatsApp, um vídeo de poucos segundos ou uma postagem com milhares de compartilhamentos não se tornam verdade apenas porque parecem convincentes. Antes de acreditar — e principalmente antes de compartilhar — é necessário procurar a fonte original, verificar a data, conhecer o contexto e comparar a informação com veículos e fontes confiáveis. A própria Justiça Eleitoral mantém canais destinados à consulta de informações oficiais e ao enfrentamento da desinformação eleitoral. (Justiça Eleitoral)
Também é importante conhecer não apenas o candidato, mas o partido ao qual ele pertence. Partidos não deveriam ser vistos apenas como as siglas que aparecem ao lado do nome na urna. Eles possuem programas, princípios, posições políticas e visões diferentes sobre economia, segurança pública, educação, saúde, papel do Estado, impostos, políticas sociais e diversos outros assuntos. O eleitor não precisa concordar integralmente com uma ideologia, mas deveria saber qual projeto político está ajudando a fortalecer com seu voto.
Da mesma forma, promessas eleitorais precisam ser examinadas com algum senso crítico. É relativamente fácil prometer durante uma campanha. Mais difícil é explicar como, quando e com quais recursos determinada proposta será realizada. É importante perguntar se aquilo que está sendo prometido realmente está entre as atribuições do cargo disputado. Um deputado, por exemplo, não exerce as mesmas funções de um prefeito; um senador não possui as mesmas atribuições de um governador. Conhecer minimamente essas diferenças ajuda a identificar propostas inviáveis ou simplesmente estranhas às competências do cargo.
Outro critério relevante é olhar para trás. O que esse candidato já fez? Se já exerceu mandato, quais projetos apresentou? Como votou em questões importantes? Participou efetivamente do mandato? Trouxe recursos, investimentos ou benefícios para nossa cidade ou região? Se ocupou função executiva, quais resultados apresentou? No caso de quem busca representar o Paraná ou o Brasil, vale perguntar igualmente o que realizou pelo Estado ou pelo país. E, quando se trata de candidatos que já tiveram oportunidade de ajudar Reserva, é perfeitamente legítimo que o eleitor procure saber quais foram suas ações concretas em favor do Município. O voto consciente deve considerar discursos, mas também resultados.
Hoje existem ferramentas oficiais que facilitam parte desse trabalho. O DivulgaCandContas, da Justiça Eleitoral, permite consultar dados dos candidatos, partido, situação do registro, bens declarados, propostas apresentadas, receitas e despesas de campanha, doadores e fornecedores. Nas Eleições de 2026, inclusive, já estão disponíveis informações da prestação de contas parcial das campanhas. (Justiça Eleitoral) Portanto, nunca tivemos tanta informação disponível. O desafio passou a ser utilizá-la.
Existe ainda uma reflexão que merece espaço em qualquer democracia: a importância da possibilidade real de alternância no poder. Isso não significa afirmar que todo governante deva necessariamente ser substituído, nem que permanecer no poder seja sinônimo de corrupção. Significa reconhecer que nenhuma pessoa, partido ou grupo político deveria considerar determinada estrutura pública como sua propriedade. Democracias saudáveis dependem da possibilidade concreta de substituição daqueles que governam.
Longos períodos de domínio político podem favorecer acomodação e criar relações excessivamente próximas entre agentes políticos, estruturas administrativas e grupos de interesse. A alternância, quando determinada livremente pelos eleitores, pode funcionar como mecanismo adicional de controle, renovação e fiscalização. Ao mesmo tempo, a simples troca de governantes não elimina corrupção nem garante boa administração. Por isso, mais importante do que defender automaticamente quem está no poder ou quem está na oposição é preservar instituições independentes, transparência, imprensa livre, órgãos de controle atuantes e cidadãos dispostos a fiscalizar permanentemente seus representantes.
Talvez esteja justamente aí um dos maiores equívocos do debate político atual: transformar políticos em times de futebol. É possível votar em alguém e depois criticá-lo. É possível reconhecer um acerto de quem não recebeu nosso voto. É possível mudar de opinião diante de novos fatos. O político eleito não é ídolo, inimigo ou dono do voto recebido. É um representante temporário da população e deve satisfação a ela.
Por isso, antes de votar, pesquise. Leia opiniões diferentes das suas. Confira as informações que recebe. Conheça o partido. Compare propostas. Examine o histórico. Procure saber de onde vem o dinheiro da campanha. Veja quem já ocupou cargo público e o que efetivamente realizou. Pergunte o que determinado candidato já fez por Reserva, pelo Paraná ou pelo Brasil. E não permita que uma fake news, uma amizade, uma fotografia, um favor pessoal ou uma paixão política decida por você.
Democracia não se resume ao direito de votar. Ela exige também a responsabilidade de saber por que estamos votando. A urna registra apenas alguns números, mas por trás deles existe uma escolha que afetará milhões de pessoas durante anos. Informação, independência e espírito crítico continuam sendo as melhores ferramentas do eleitor.
Douglas Augusto Roderjan Filho é advogado formado pela UEPG, há 25 anos. Procurador da Câmara Municipal de Reserva, pós- graduado em Direito Ambiental e em Gestão Pública.


